Quando se deixa um cão sozinho em casa – principalmente se for por muitas horas -, é preciso prever alguns acidentes que eles possam causar ou em que possam se envolver.
Quando são filhotes, por exemplo, especialmente quando são de raça pequena, como é o caso da minha, é recomendável deixar as portas fechadas ou então calçadas com algum objeto, a menos que se certifique que não há nenhuma corrente de ar pela casa. Isso porque uma porta batendo num filhotinho de raça de pequeno porte pode causar grandes estragos – inclusive a morte. A minha, miúda que era, certamente morreria.
Também é preciso tomar cuidado para que o cão não corra o risco de ficar trancado em alguma peça. Um dia eu estava entrando no meu prédio, e uma vizinha veio me dizer que minha cadela havia chorado a tarde inteira. Ela ainda não era adulta, mas já estava acostumada a ficar sozinha, de modo que me preocupei. Subi as escadas correndo para ver o que havia acontecido: eu havia deixado aberta a porta da cozinha que dá para a área de serviço para que ela pudesse se refrescar debaixo do tanque – é um lugar fresquinho no verão -, mas a porta bateu com o vento, deixando-a trancada pelo lado de fora, sem acesso a seus potes de água e comida e ao seu banheirinho, sem contar que ficou a tarde confinada em, sei lá, menos de 1 metro quadrado, a pobrezinha.
Outro perigo são os fios elétricos. Há momentos em que se há de contar com a sorte. O que poderia eu fazer com o fio da geladeira, por exemplo? Não poderia desligar o aparelho e deixar minha comida estragar, tampouco poderia erguer o fio para fora do alcance da cachorrinha, devido ao seu curto comprimento. Graças a Deus, ela nunca se interessou pelo fio da geladeira. Mas pelo da minha lâmpada de cabeceria, já, e ainda bem que eu estava em casa. Eram 3h da madrugada. Eu estava em sono profundo quando acordei com um urro! Liguei a luz e a vi de pé olhando atentamente para o fio da lâmpada, tentando compreender o estranho fenômeno – levar choque nos dentes não deve ser mesmo agradável. Fui verificar o que havia ocorrido e, dito e feito: o fio estava roído. Nunca mais ela chegou perto.
Mas a peripécia mais grave que ela cometeu foi abrir uma das bocas do fogão. E eu não estava em casa! Cheguei do trabalho e senti que a cozinha estava com cheiro forte de gás. Então olhei as bocas do fogão e percebi que uma delas estava viradinha para o lado. Na certa ela sentiu cheiro de alguma gota de óleo que ali havia respingado, lambeu e, com o movimento da língua, girou o botão. Felizmente, isso deve ter sido pouco antes de eu chegar, pois o cheiro ainda estava só na cozinha, e ela estava muito bem, sem nenhum sinal de tontura. Mas aprendi a lição: não saio de casa sem fechar o botijão de gás.
Outro cuidado que se deve tomar: não deixar pela pia da cozinha filtro de café com a borra ou qualquer outra coisa que atraia abelhas. Um dia eu fiz isso, e o apartamento foi invadido por oito abelhas – felizmente, eu estava em casa. É claro que a cadela ficou excitadíssima com a presença dos insetos, tentando pegá-los. Lembro que eu tinha um compromisso, mas liguei para as pessoas envolvidas para avisar sobre o meu atraso, alegando “problemas domésticos”. Não sabia que efeito oito picadas de abelhas teriam numa cachorra de pequeno porte – e não tive curiosidade para saber. Foi um transtorno: tive que prender a cachorra no quarto, enquanto descarregava um inseticida nas abelhas, até que todas morressem. Depois, é claro, tive que limpar toda a área afetada pelo veneno, para que a cachorra não fosse lá lamber e morrer intoxicada.
Falando em intoxicação, outro dia cheguei em casa e encontrei esfarelado pelo chão da cozinha o pão todo embolorado que eu havia posto no lixo. Detalhe:o pão estava pela metade. A outra estava na barriguinha da cachorra. Liguei imediatamente para o veterinário, que me tranquilizou: como era pouca quantidade de pão, não haveria problemas mais sérios que uma diarréia. Mas nem isso ela teve. De qualquer forma, não deixo mais que ela tenha acesso ao lixo.